terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Minha vez de chegar

Foi coincidência, pura coincidência este desencontro da vida e estes encontros de datas. Faz um ano que esperava por ti quando tu chegaste e os meus olhos encontraram-se com os teus, foi ali o meu primeiro olhar, mas também respirar, abraço, sentir e teu momento. Foi ali que encontrei o meu cais. Encontrei-te à saída das chegadas. Será que as “saídas” são o melhor local para se encontrar alguém? Estranho, mesmo estranho! A minha vida tem sido feita de partidas e chegadas…e tanta gente me deixa nas saídas, e quase ninguém me espera nas chegadas. Curioso, nunca tinha dado conta disto…logo eu que quando comecei esta vida imaginava ter alguém especial à minha espera nas chegadas. Nunca recebi um abraço à chegada…
Em outra porta, em outra saída, é a minha vez de chegar. Não é a primeira vez que cruzo esta porta, mas convenci-me que a anterior não existiu. Saio devagar, com calma e calmo. Estou sereno. A minha parte racional diz-me que, ao exemplo de tantas outras chegadas, não tenho ninguém à minha espera. Racionalmente só pode ser assim! Olho à minha volta e não encontro ninguém, não te encontro. Isto de ser emocional trai-nos muitas vezes. Este foi o primeiro embate daquilo que ando à semanas a treinar: R a c i o n a l i z a r. Levanto o carro e estou a entrar quando alguém me pergunta se vou para a cidade. Eu digo que não. Quero estar sozinho e construir minhas imagens e dar forma às recordações das conversas e descrições que tinhas feito. Quero tornar real os lugares que criei no meu imaginário! Não quero ruído. Estrada fora lá vou, está sol, dia lindo e devagar deixo os meus olhos ver, meus sentidos absorver, deixo-me ir ou já nem sei se me deixo levar.
Sentado aqui à tua espera, desvio o meu pensamento para tudo que não sejas tu. Não quero fraquejar, não quero dor. Ainda mergulhado neste pensamento, não te vejo entrar e quando dou conta estas aqui ao pé de mim. Olho-te nos olhos e desvio o meu olhar. Não sei mais nada, não me lembro o que disse, não me lembro o que disseste, não me lembro como te cumprimentei, nada! Não me lembro de nada. Fiquei cego pelo olhar. O não te olhar nos olhos é para me proteger...já me expus demasiado, e isso não me da força, torna-me fraco, despido. Saímos e não me lembro de mais nada, sei por onde passei, mas não recordo, não me lembro de nada e apenas começo a voltar a mim já restaurante. Não sei se foi pelo sabor da sopa, se pelo cheiro a caril ou ainda se pelo teu olhar. Sim, volto a olhar-te nos olhos e desta vez foste tu que desviaste. Falo de qualquer coisa, conversa de circunstancia, e começo a pensar e a sentir uma coisa de cada vez. Finalmente penso devagar. Até ali pensei tudo ao mesmo tempo.
Saímos e começo a conduzir, tu aqui ao meu lado, falas mas não te consigo ouvir, a única coisa que escuto são umas vozes na minha cabeça e um sentimento estranho. Já não te vejo à meses, mas a minha sensação é que ainda ontem estive contigo. A distancia e o tempo reduziram-se a 24 horas. Ontem ainda estive contigo. É o que sinto. A noção de tempo e distancia é tão estranha...   
Estrada fora reconheço alguns lugares, antes estavam escuros, desta vez com luz. Começo a digerir, sentir, ouvir, interiorizar e a ver. Aos poucos começo a ficar naquele estado que sempre me deixavas. Aos poucos, estar aqui faz esquecer muita coisa e minha única preocupação era manter “distancia”. Aos poucos começo a ver, aquelas casas, aquelas estradas, paisagens, aquela gente…aquele mar, aquele verde aquelas cores, aqueles cheiros, aquele silencio…sento-me parte, sento-me aqui. Isto sou eu, isto também é meu. Explicar isso? Não se explica, sinto. Os lugares que me levas, as fotos, os cheiros, a brisa, o vento as árvores, tu…tu aqui, mesmo quando interrompido pelo telefone. Depois tu a conduzir (conduzes bem) os erros e os lugares que mudaram de lugar, os sorrisos...a calma imensa.
Recordo cada lugar como meu…alguns roubados em fotos e outros marcados na alma.
Os momentos e as curvas percorridas são magia…vão muito mais alem do que aqui escrevo…e do que posso/devo escrever.
Acabo a tarde a cumprir a promessa de um abraço pendente, possivelmente que tinha de ser dado á mais tempo. Cumpro o que prometo. Aqui enquanto esperamos tu falas, não abordaria se não fosses tu.… escuto, é importante, mas fico com tudo (quase tudo) o que sinto, vejo-te muito mais além das palavras. O silencio também é uma forma de comunicar.
Gostei de te conhecer “miúda” do cabelo laranja! Sabes aquela sensação quando vês alguém pela primeira vez e parece que já conheces? E isso! E fazes-me sentir um dos teus e senti-me dentro desse teu mundo, tão só teu. E assim, os três, la vamos estrada fora matando saudades, a caminho de saciar a fome. Como seria bom que pudéssemos saciar a saudade como fazemos com a fome.
Tudo é uma descoberta, os sabores, os locais, as pessoas, absorvo tudo ao meu redor com medo de perder alguma coisa.
O tempo corre rápido, demasiado rápido e já é noite. Mais noite ficou com aquele despedir. Eu para um lado, tu para o outro. Vontade de olhar para trás, mas não me posso permitir. Entro no hotel, sento-me por alguns minutos e volto a sair. Perco-me pelas ruas da cidade, passo por alguns lugares familiares, percorro as vielas, e sento-me num muro. Aquele muro! Ali à minha frente está o mar e com ele as minhas memorias de lugares que criei com base no que dizias. Eu aqui tão perto a lutar para que o meu pensamento não saia daqui, não se afaste do meu corpo…e fico aqui no meio deste turbilhão, a nadar contra a corrente a enfrentar a força das minhas fraquezas e a por à prova o que me tornei…e na busca do que sou.
O dia acabou, triste e frio como tantos outros, possivelmente este mais escuro, mas amanha é novo dia, amanha…sigo.


       

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