terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Outro dia

E com o amanha que se transforma no hoje, chegou e com ele mais sentires, sentimentos, emoções e recordações. Desperto cedo, muito cedo. A cidade ainda está deserta e vagueio por estas ruas, estas ruelas e sítios que já tinha estado, mas nessa altura escuros. Nessa altura tudo era escuro. Tantos lugares desconhecidos, mas que sento tão meus, tantas vezes imaginados e esperados para conhecer. Apenas faltou tua chamada para eu ir, e tu para me levares. Aos poucos a cidade começa a ganhar vida e já manhã alta, no meio do turbilhão de gente, la chegas tu. Tens ar cansado. E tu levas-me para sítios já descritos por ti e construídos na minha mente. Confesso que os locais são mais bonitos do que imaginei. O vento do brasil…os cheiros misturados com o teu cheiro, os sorrisos e esse lugar que um dia imaginei percorrer contigo. As fotos, os olhares, a paisagem, o mar, o horizonte e tudo o que foi dito pelo silencio das palavras não ditas. Contenho-me, mudo de discurso e disfarço para não notares nada que tenho nos olhos.
Perdido pelas curvas da terra e da vida, este local…este sitio! Este sitio que nunca estive, mas que já vi, já o tinha imaginado. Já estive neste lugar, não sei explicar, mas já sonhei com isto. Não imaginei o peixe que comi, mas já senti isto. Os barcos, as cores, o monte ao fundo e o mar. Está cá tudo, até tu estás. Converso contigo e arrancas da minha boca algumas duvidas, sendo que outras já desisti de entender, ou porque não quero entender. O teu olhar não é o mesmo. O teu olhar não tem o mesmo brilho. O olhar não engana! O olhar que me fez apaixonar está diferente, esse olhar que foge agora em direção ao mar…essas lágrimas. As lagrimas dizem tudo, ou quase tudo. Neste momento era tão fácil “puxar” por ti e obrigar-te a deitar tudo cá para fora. Parei…não quis ir por aí, senti “misericórdia” misturado com medo. A resposta és tu que a tens e eu prefiro continuar perdido neste momento, não quero sentir-me no meio de nada muito menos num olhar que não é meu, que não é meu. O teu olhar é do mar…perde-se no horizonte.
Depois, mais tarde, a visita…la no alto. Conversa interior, que palavras não descrevem. Momento único…momento. Toca-me a simplicidade e a presença que aqui sinto. Toca a paz e o meu pensamento para alguém que é teu…que partiu mas não te deixou.
À medida que o dia corre, começo a sentir um aperto cá dentro. Aquela sensação de querer fazer parte, mas estar enjaulado nas circunstancias da vida, ou melhor...nas circunstancias que não escolhi. Não posso aceitar convite. Não seria racional…não quero comprometer nada, ser “motivo para”, estragar festa nem transformar um momento de alegria em “peso” ou pesar. O meu lugar não é aí…por mais gostasse de estar. Sou o estranho, o estrangeiro, o forasteiro, o ausente, o distante, o….sou o elo mais fraco disto tudo.
O resto do dia é já sem ti. Na praia, ao som de musica, sorrisos e partilha. Derrubar muros e partilhar vidas. No fundo é o melhor das pessoas, quando desamarramos nossas fraquezas e partilhamos o que somos, como somos. Obrigado miúda (uso esta expressão em forma de carinho)! Obrigado, de coração. Conheci-te com 6 meses de atraso.
E no fim, ca fico eu, no meu lugar. Entregue a mim e perdido no meio das calçadas da cidade. Depois de algumas tentativas, e já escuro, ganho coragem e vou. Fico aqui parado do outro lado da rua. Numero é o 67, podia ser outro, mas não, este é o numero. Aqui…e ali dentro passa pela minha cabeça milhões de palavras que trocamos, imagens, momentos, sentires, sentimentos, sorrisos, partilha, companhia…esse lugar sonhado, vivido, sentido, mas não realizado. Aqui ao lado, ali mesmo do outro lado, mesmo ali. Muita coisa vem à minha mente…que fica deste lado, aqui dentro.
Guardo a imagem…serve para não esquecer

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Onde estás?


Minha vez de chegar

Foi coincidência, pura coincidência este desencontro da vida e estes encontros de datas. Faz um ano que esperava por ti quando tu chegaste e os meus olhos encontraram-se com os teus, foi ali o meu primeiro olhar, mas também respirar, abraço, sentir e teu momento. Foi ali que encontrei o meu cais. Encontrei-te à saída das chegadas. Será que as “saídas” são o melhor local para se encontrar alguém? Estranho, mesmo estranho! A minha vida tem sido feita de partidas e chegadas…e tanta gente me deixa nas saídas, e quase ninguém me espera nas chegadas. Curioso, nunca tinha dado conta disto…logo eu que quando comecei esta vida imaginava ter alguém especial à minha espera nas chegadas. Nunca recebi um abraço à chegada…
Em outra porta, em outra saída, é a minha vez de chegar. Não é a primeira vez que cruzo esta porta, mas convenci-me que a anterior não existiu. Saio devagar, com calma e calmo. Estou sereno. A minha parte racional diz-me que, ao exemplo de tantas outras chegadas, não tenho ninguém à minha espera. Racionalmente só pode ser assim! Olho à minha volta e não encontro ninguém, não te encontro. Isto de ser emocional trai-nos muitas vezes. Este foi o primeiro embate daquilo que ando à semanas a treinar: R a c i o n a l i z a r. Levanto o carro e estou a entrar quando alguém me pergunta se vou para a cidade. Eu digo que não. Quero estar sozinho e construir minhas imagens e dar forma às recordações das conversas e descrições que tinhas feito. Quero tornar real os lugares que criei no meu imaginário! Não quero ruído. Estrada fora lá vou, está sol, dia lindo e devagar deixo os meus olhos ver, meus sentidos absorver, deixo-me ir ou já nem sei se me deixo levar.
Sentado aqui à tua espera, desvio o meu pensamento para tudo que não sejas tu. Não quero fraquejar, não quero dor. Ainda mergulhado neste pensamento, não te vejo entrar e quando dou conta estas aqui ao pé de mim. Olho-te nos olhos e desvio o meu olhar. Não sei mais nada, não me lembro o que disse, não me lembro o que disseste, não me lembro como te cumprimentei, nada! Não me lembro de nada. Fiquei cego pelo olhar. O não te olhar nos olhos é para me proteger...já me expus demasiado, e isso não me da força, torna-me fraco, despido. Saímos e não me lembro de mais nada, sei por onde passei, mas não recordo, não me lembro de nada e apenas começo a voltar a mim já restaurante. Não sei se foi pelo sabor da sopa, se pelo cheiro a caril ou ainda se pelo teu olhar. Sim, volto a olhar-te nos olhos e desta vez foste tu que desviaste. Falo de qualquer coisa, conversa de circunstancia, e começo a pensar e a sentir uma coisa de cada vez. Finalmente penso devagar. Até ali pensei tudo ao mesmo tempo.
Saímos e começo a conduzir, tu aqui ao meu lado, falas mas não te consigo ouvir, a única coisa que escuto são umas vozes na minha cabeça e um sentimento estranho. Já não te vejo à meses, mas a minha sensação é que ainda ontem estive contigo. A distancia e o tempo reduziram-se a 24 horas. Ontem ainda estive contigo. É o que sinto. A noção de tempo e distancia é tão estranha...   
Estrada fora reconheço alguns lugares, antes estavam escuros, desta vez com luz. Começo a digerir, sentir, ouvir, interiorizar e a ver. Aos poucos começo a ficar naquele estado que sempre me deixavas. Aos poucos, estar aqui faz esquecer muita coisa e minha única preocupação era manter “distancia”. Aos poucos começo a ver, aquelas casas, aquelas estradas, paisagens, aquela gente…aquele mar, aquele verde aquelas cores, aqueles cheiros, aquele silencio…sento-me parte, sento-me aqui. Isto sou eu, isto também é meu. Explicar isso? Não se explica, sinto. Os lugares que me levas, as fotos, os cheiros, a brisa, o vento as árvores, tu…tu aqui, mesmo quando interrompido pelo telefone. Depois tu a conduzir (conduzes bem) os erros e os lugares que mudaram de lugar, os sorrisos...a calma imensa.
Recordo cada lugar como meu…alguns roubados em fotos e outros marcados na alma.
Os momentos e as curvas percorridas são magia…vão muito mais alem do que aqui escrevo…e do que posso/devo escrever.
Acabo a tarde a cumprir a promessa de um abraço pendente, possivelmente que tinha de ser dado á mais tempo. Cumpro o que prometo. Aqui enquanto esperamos tu falas, não abordaria se não fosses tu.… escuto, é importante, mas fico com tudo (quase tudo) o que sinto, vejo-te muito mais além das palavras. O silencio também é uma forma de comunicar.
Gostei de te conhecer “miúda” do cabelo laranja! Sabes aquela sensação quando vês alguém pela primeira vez e parece que já conheces? E isso! E fazes-me sentir um dos teus e senti-me dentro desse teu mundo, tão só teu. E assim, os três, la vamos estrada fora matando saudades, a caminho de saciar a fome. Como seria bom que pudéssemos saciar a saudade como fazemos com a fome.
Tudo é uma descoberta, os sabores, os locais, as pessoas, absorvo tudo ao meu redor com medo de perder alguma coisa.
O tempo corre rápido, demasiado rápido e já é noite. Mais noite ficou com aquele despedir. Eu para um lado, tu para o outro. Vontade de olhar para trás, mas não me posso permitir. Entro no hotel, sento-me por alguns minutos e volto a sair. Perco-me pelas ruas da cidade, passo por alguns lugares familiares, percorro as vielas, e sento-me num muro. Aquele muro! Ali à minha frente está o mar e com ele as minhas memorias de lugares que criei com base no que dizias. Eu aqui tão perto a lutar para que o meu pensamento não saia daqui, não se afaste do meu corpo…e fico aqui no meio deste turbilhão, a nadar contra a corrente a enfrentar a força das minhas fraquezas e a por à prova o que me tornei…e na busca do que sou.
O dia acabou, triste e frio como tantos outros, possivelmente este mais escuro, mas amanha é novo dia, amanha…sigo.